Rebeca

7edsongodinho rebeca

Sabe, vivemos realmente um momento de limpeza da nossa espécie. As denuncias dos abusos de grandes diretores e fotógrafos geram esta reflexão do papel do condutor da arte. Artistas admirados se valeram de sua projeção para violar pessoas, sonhos e desejos.

Há alguns anos um diretor me perguntou durante a última edição do CineUrge se eu não faria mais filmes, minha resposta foi: no momento estou fazendo terapia. Antes de todo esse alvoroço já estava pensando justamente na minha postura como diretor, em como eu conduzia uma obra fílmica.

Vivemos em uma sociedade pautada no abuso do direito do outro, vivemos numa sociedade machista, e isso muitas vezes nos faz tomar atitudes coerentes com os modelos vigentes. Claro que os moldes não nos eximem da reflexão de nossas ações. Não estou defendendo os artistas abusadores, sou a favor dos julgamentos e das punições. Só estou dando voz a nossa reavaliação, e a detecção de nossas atitudes abusadoras, mesmo que ainda sejam muito pequenas perto dos crimes hediondos cometidos por outros. A agressão não é só física, o abuso também é verbal, diariamente cometemos pequenos delitos morais com as pessoas que convivemos. Já é hora de mudar, não? Até quando vamos querer oprimir para não sermos oprimidos? Sim eu sei, não é uma tarefa fácil, até porque exige empatia, e nos colocar no lugar do outro é extremamente complicado. Penso e seguirei pensando que o falatório da vida do outro é a arma do fraco, e que a pequena agressão verbal, a leve ridicularizarão do outro é a concretização do sonho de quem alimenta seu lado mais medíocre para o alento de uma autoestima dilacerada.

Tento, mas nem sempre consigo me policiar, porém creio que estas atitudes mínimas citadas acima, quando são alimentadas diariamente nos levam a uma série de abuso bem piores. O poder desses homens, desses diretores alimentou a violência. Quando falamos do Demônio nos esquecemos dos que habitam em nosso ser, e também esquecemos que nossas pequenas – futuramente grandes – agressões são o alimento do Satanás que tanto tememos e não vive em baixo da terra. Na realidade vive em nosso próprio couro.

Acho que a terapia tem ajudado, quero voltar fazer cinema. Rebeca.

"Vivi de carnificina… Pura Carne de Açougue! Fui em busca de Mundos Possíveis. Agora uso o 7 como talismã"!